Triunfo sem glória, vitória sem heróis

Excelente artigo no do Luís Costa Pinto no El País! Se é que o que ocorreu ontem foi uma vitória de alguém, com toda a certeza, não houve glória, nem haverá heróis.

Desinformação Não!


Brasileiros aguardam o desfecho da votação em Brasília.rn rn
Brasileiros aguardam o desfecho da votação em Brasília. BETO BARATA AFP

Na esteira das grandes batalhas nascem os rascunhos de roteiros épicos de redenção de povos, de Nações ou de grandes alianças surgidas com o objetivo de redimir injustiças. A história desses embates, muitas vezes, eterniza-se quando narrada pelos vencedores em obeliscos plantados com a intenção de conferir glória divina aos triunfos heroicos. Houve uma grande batalha em Brasília no domingo 17 de abril. Ao fim dela, colhido o 511º voto de 513 possíveis – uma deputada do Rio e um deputado do Ceará faltaram à sessão da Câmara dos Deputados convocada para autorizar, ou não, a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff – não havia heróis a celebrar o triunfo da oposição ante a chefe do governo brasileiro.

Ao contrário de 1992, quando a Câmara também abriu um processo de impeachment contra o então presidente Fernando Collor de Mello, a vitória da oposição não é uma senha para unir o país. Há 24 anos, sem base parlamentar e com escassa interlocução na sociedade civil, Collor obteve apenas 38 votos a seu favor e não houve voz que se levantasse em sua defesa arguindo inconstitucionalidades e fragilidades jurídicas no processo que o tirou do poder. Ainda assim o ex-presidente foi absolvido no Supremo Tribunal Federal. A perda de seu mandato passou à História como um caso de fraqueza política de alguém que se resignou ante o veredito do Parlamento. Há evidências nada desprezíveis de que a versão 2016 do impeachment presidencial brasileiro será diferente.

O Brasil de 1992 se uniu em torno de um vice-presidente anódino, Itamar Franco. Ex-senador, mercurial, detentor de um restrito mas solidário grupo de amigos íntimos e homem de honestidade pessoal comprovada, ele virou a solução viável para a queda de Collor porque se recusou a conspirar para ser visto como tal. Tanto foi assim que o primeiro ministro da Fazenda de seu governo, o pernambucano Gustavo Krause, foi escolhido para o cargo apenas seis horas antes de sua posse na presidência.

Itamar sabia que a simplicidade dos gestos, a humildade ao pedir a união em torno de si e a inapetência para se transformar em salvador da pátria poderiam ser a chave de seu sucesso à frente de um Governo de união nacional. E foi. Tanto que passou à História como o homem que fez de Fernando Henrique Cardoso ministro da Fazenda, dando-lhe condições de se eleger presidente da República por duas vezes, e não como o hábil e improvável político paroquial que serenou uma Nação que flertava com o colapso econômico e com ameaças muito mais inflamadas do que hoje em dia de retrocesso aos tempos sombrios da ditadura militar.

Não há chance de o Brasil de 2016 se unir em torno de Michel Temer, o vice-presidente que deve assumir o posto de presidente interino da República nas próximas três ou quatro semanas. Ao contrário de Itamar, o paulista Temer é o centro de uma vasta rede de raposas políticas que compartilham ambições semelhantes, porém cada um deles guarda no bolso direito dos paletós bem cortados fórmulas divergentes para o exercício do poder. Hábil operador político, Michel Temer carpiu a armadilha que capturou a presidente no processo de impeachment. Mas os 146 votos dados contra o impeachment (137 “não”, 7 abstenções e duas ausências) e uma incipiente adesão à tese de antecipação das eleições presidenciais, mesmo entre integrantes do bloco majoritário que aprovou a abertura do processo, são obstáculos sólidos à construção tranquila e rápida de um eventual “Governo Temer”. A chave para o sucesso de Temer certamente será a recusa em buscar a difícil unanimidade em torno de si. Caso a busque, não a encontrará e ficará tentando dialogar com quem lhe imporá monólogos.

A partir de hoje Michel Temer será instado a dar opiniões e a esgrimir soluções para o país nos campos da economia interna, das relações externas e da segurança pública, do combate à corrupção e da saúde, por exemplo. Um eventual governo sob sua liderança, contudo, só se iniciará depois que o Senado confirmar a abertura do processo admitido na Câmara. Para isso terá de transpor duas votações por maioria simples (em que vence quem tem 50% mais um dos votos dos senadores presentes às sessões). Em 1992 o Senado admitiu o processo e afastou Collor num prazo de 48 horas. Agora, serão transcorridos cerca de 20 dias em que o país conviverá com uma presidente virtualmente afastada, um presidente interino virtualmente sagrado e um Senado povoado por biografias astutas e prontuários experientes sedentos por impor seus ritmos e ritos à evolução do calendário – ampliando ou reduzindo o prazo da posse de Temer. Divisões de poder e o desencadeamento de novas e esperadas fases da Operação Lava Jato, além da publicidade de novos e cada vez mais constrangedores detalhes de delações premiadas, também turvarão a cena política das próximas semanas e conferirão pitadas ainda mais dramáticas ao enredo político do Brasil.

Frio, dono de um sorriso cínico e “usufrutuário” de polpudas contas na Suíça, investigado como beneficiário de empresas offshores no Panamá, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara e elemento decisivo na escalada que pode levar Temer à cadeira de Dilma no Palácio do Planalto, poderia ser o herói destinado a ter sua saga narrada num obelisco improvável na Praça dos Três Poderes. Não o será: em que pese o Brasil figurar como o único país que ergueu um obelisco para celebrar uma derrota – o do Ibirapuera, em São Paulo, construído para eternizar o levante constitucionalista de 1932 esmagado sem dó por Getúlio Vargas – obeliscos costumam ser planejados para marcar triunfos gloriosos. Nem Cunha é herói, uma vez que possui o DNA dos vilões e o olhar frio dos psicopatas, nem o triunfo da oposição sobre um governo abúlico, no último domingo, foi um épico glorioso. A Nação que assistiu serem dados 367 votos a favor da abertura do processo de impeachment de uma presidente eleita com mais de 54 milhões de sufrágios há menos de 18 meses está divida e sem perspectiva de se unir. Está sem líderes no horizonte, sem projetos que amalgamem a sociedade, carente de base onde assentar a pedra fundamental de qualquer monumento. E construir futuros é um desafio monumental. Temer tem contra si, agora, a marcha implacável do tempo para evitar que a História, ao fim e ao cabo, termine escrita pelos vencidos na batalha de 17 de abril. Afinal, a guerra não acabou ali.

Luís Costa Pinto é jornalista, consultor de comunicação e publicitário